Ariano Suassuna: Uma Epopeia Cultural entre a Tradição e a Eternidade


Nas terras áridas e luminosas do sertão nordestino, onde o sol incandescente forja almas resilientes e a memória ancestral sussurra através dos ventos que varrem a caatinga, ergueu-se, como um farol de sabedoria e resistência cultural, a figura monumental de Ariano Vilar Suassuna. Nascido em 16 de junho de 1927, no Palácio da Redenção, em João Pessoa, Paraíba, sob o signo de uma linhagem política ilustre – filho de João Suassuna, então presidente do estado –, o destino parecia ter-lhe traçado, desde o berço, um caminho entre os palácios do poder e os alpendres rústicos onde o povo canta, reza e tece suas histórias.

Contudo, foi na tragédia que se forjou a essência de sua missão: o assassinato político de seu pai, em 9 de outubro de 1930, no Rio de Janeiro, quando Ariano contava apenas três anos de idade, marcou-o com uma ferida primordial que se transformaria, ao longo de décadas, no motor de sua criação artística. Como ele próprio confessaria, em discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, sua obra seria, em grande medida, um protesto perene contra aquela morte, uma tentativa de recuperar, através da palavra, a imagem paterna e de oferecer-lhe uma compensação precária, porém sincera, diante do mistério insondável do destino. Assim, entre a dor e a esperança, entre a memória e a profecia, Ariano Suassuna empreendeu uma jornada épica, digna dos grandes bardos de outrora, para erguer, a partir das raízes populares do Nordeste, uma arte erudita que fosse, ao mesmo tempo, espelho e lâmpada da alma brasileira. 


Sua formação intelectual, sólida e multifacetada, refletiu a amplitude de seus interesses e a profundidade de seu compromisso com o conhecimento. Após os estudos secundários no Recife, concluídos em 1945, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco, onde se formou em Ciências Jurídicas e Sociais em 1950. Não obstante, sua sede de saber não se contentou com as fronteiras do direito; entre 1957 e 1959, cursou bacharelado em Filosofia na Universidade Católica de Pernambuco, colando grau em 1960, e, em 1976, defendeu tese de livre-docência em História da Cultura Brasileira, intitulada A Onça Castanha e a Ilha Brasil: Uma Reflexão sobre a Cultura Brasileira, pela mesma instituição onde viria a lecionar, por mais de três décadas, disciplinas como Estética, História da Arte e Teoria do Teatro.

Essa trajetória acadêmica, entrelaçada com uma conversão religiosa significativa – de formação calvinista e posterior agnosticismo ao catolicismo, por influência de sua esposa Zélia de Andrade Lima, com quem se casou em 1957 –, conferiu a sua obra uma densidade filosófica e teológica rara, na qual o sagrado e o profano dialogam em constante tensão criativa. Foi nesse caldeirão de saberes que Suassuna forjou suas primeiras armas literárias: em 1945, seu poema "Noturno" foi publicado no Jornal do Commercio do Recife; em 1947, escreveu Uma Mulher Vestida de Sol, sua peça inaugural; e, ao longo dos anos seguintes, produziu uma sucessão de obras teatrais que consolidariam sua reputação, como Auto de João da Cruz (1950, premiado com o Prêmio Martins Pena), O Rico Avarento (1954) e, sobretudo, o imortal Auto da Compadecida (1955), texto que o crítico Sábato Magaldi, em 1962, celebraria como "o texto mais popular do moderno teatro brasileiro".

Adaptado para a televisão e o cinema, traduzido para múltiplos idiomas e encenado incessantemente por todo o país, o Auto permanece como uma síntese magistral do gênio suassuniano: uma farsa moralizante, repleta de humor, ironia e compaixão, na qual personagens arquetípicos – o sertanejo astuto João Grilo, o covarde e leal Chicó, a Virgem Compadecida – navegam por um universo onde a justiça divina e a miséria humana se entrelaçam em um balé de redenção e crítica social.


Foi na prosa de ficção que Ariano Suassuna alcançou talvez sua expressão mais ambiciosa e complexa. Em 1971, publicou Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, obra monumental que funde romance, teatro e poesia em uma narrativa labiríntica, erudita e popular simultaneamente, inspirada na literatura de cordel, nos romances cavaleirescos ibéricos e nas tradições orais do sertão. Nesse livro, como em uma tapeçaria medieval ricamente bordada, desfilam personagens históricos e fictícios, profecias e sátiras, elementos autobiográficos e mitologias regionais, tudo articulado por uma linguagem que oscila entre o coloquial vibrante e o barroco solene.

A essa obra-prima seguiram-se História d'O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão (1976) e, postumamente, em 2017, A Ilumiara – Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores, considerada por ele próprio "o livro da sua vida" e organizada por sua família a partir de manuscritos trabalhados ao longo de trinta anos. Paralelamente à criação literária, Suassuna idealizou, em outubro de 1970, o Movimento Armorial, projeto cultural de envergadura épica que visava criar uma arte erudita brasileira a partir das raízes populares do Nordeste, orientando para esse fim todas as formas de expressão artística: música, dança, literatura, artes plásticas, teatro, cinema e arquitetura. Lançado no Recife com o concerto "Três Séculos de Música Nordestina – do Barroco ao Armorial", o movimento representou não apenas uma proposta estética, mas uma verdadeira cruzada cultural, na qual Suassuna, como um cavaleiro medieval das letras, convocou artistas, intelectuais e o povo a reafirmarem a dignidade e a originalidade da cultura nordestina frente às imposições homogeneizadoras da modernidade globalizada.


Além de sua atividade criadora, Ariano Suassuna dedicou-se intensamente à vida pública e ao magistério. Exerceu cargos de secretário de Educação e Cultura do Recife (1975–1978), secretário de Cultura de Pernambuco (1994–1998) e secretário especial de Cultura de Pernambuco (2007–2010), sempre pautado por uma visão socialista e de esquerda, que o levou a filiar-se ao Partido Socialista Brasileiro em 1990 e a assumir, em 2011, sua presidência de honra. Como professor da Universidade Federal de Pernambuco, entre 1956 e 1989, formou gerações de estudantes, transmitindo-lhes não apenas conhecimentos teóricos, mas uma paixão pela cultura brasileira e um compromisso ético com a transformação social.

Sua atuação foi reconhecida por inúmeras honrarias: membro fundador do Conselho Federal de Cultura (1967), acadêmico das Academias Pernambucana, Paraibana e Brasileira de Letras, doutor honoris causa por diversas universidades, agraciado com a Ordem do Mérito Cultural e indicado, em 2012, como representante do Brasil na disputa pelo Prêmio Nobel de Literatura. Suas obras, traduzidas para inglês, francês, espanhol, alemão, holandês, italiano e polonês, tornaram-se objeto de estudos acadêmicos em instituições brasileiras e estrangeiras, atestando sua projeção internacional.

Em 23 de julho de 2014, aos 87 anos, Ariano Suassuna partiu deste mundo, vítima de parada cardíaca, no Recife, deixando um legado que transcende a literatura: uma visão de Brasil que valoriza a diversidade cultural, a justiça social e a beleza intrínseca das tradições populares. Como um trovador dos tempos modernos, ele cantou, em prosa e verso, a epopeia do sertão, transformando a memória em profecia e a dor em esperança. E assim, enquanto houver quem leia suas páginas, quem encene seus autos, quem cante suas músicas, Ariano Suassuna permanecerá vivo, como um farol a iluminar, nas trevas do esquecimento, o caminho de uma cultura que, feita de resistência e sonho, teima em não se calar.

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POR JANAÍNA COIMBRA, colunista convidada

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