Sua formação intelectual, sólida e multifacetada, refletiu a amplitude de seus interesses e a profundidade de seu compromisso com o conhecimento. Após os estudos secundários no Recife, concluídos em 1945, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco, onde se formou em Ciências Jurídicas e Sociais em 1950. Não obstante, sua sede de saber não se contentou com as fronteiras do direito; entre 1957 e 1959, cursou bacharelado em Filosofia na Universidade Católica de Pernambuco, colando grau em 1960, e, em 1976, defendeu tese de livre-docência em História da Cultura Brasileira, intitulada A Onça Castanha e a Ilha Brasil: Uma Reflexão sobre a Cultura Brasileira, pela mesma instituição onde viria a lecionar, por mais de três décadas, disciplinas como Estética, História da Arte e Teoria do Teatro.
Essa trajetória acadêmica, entrelaçada com uma conversão religiosa significativa – de formação calvinista e posterior agnosticismo ao catolicismo, por influência de sua esposa Zélia de Andrade Lima, com quem se casou em 1957 –, conferiu a sua obra uma densidade filosófica e teológica rara, na qual o sagrado e o profano dialogam em constante tensão criativa. Foi nesse caldeirão de saberes que Suassuna forjou suas primeiras armas literárias: em 1945, seu poema "Noturno" foi publicado no Jornal do Commercio do Recife; em 1947, escreveu Uma Mulher Vestida de Sol, sua peça inaugural; e, ao longo dos anos seguintes, produziu uma sucessão de obras teatrais que consolidariam sua reputação, como Auto de João da Cruz (1950, premiado com o Prêmio Martins Pena), O Rico Avarento (1954) e, sobretudo, o imortal Auto da Compadecida (1955), texto que o crítico Sábato Magaldi, em 1962, celebraria como "o texto mais popular do moderno teatro brasileiro".
Adaptado para a televisão e o cinema, traduzido para múltiplos idiomas e encenado incessantemente por todo o país, o Auto permanece como uma síntese magistral do gênio suassuniano: uma farsa moralizante, repleta de humor, ironia e compaixão, na qual personagens arquetípicos – o sertanejo astuto João Grilo, o covarde e leal Chicó, a Virgem Compadecida – navegam por um universo onde a justiça divina e a miséria humana se entrelaçam em um balé de redenção e crítica social.
Foi na prosa de ficção que Ariano Suassuna alcançou talvez sua expressão mais ambiciosa e complexa. Em 1971, publicou Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, obra monumental que funde romance, teatro e poesia em uma narrativa labiríntica, erudita e popular simultaneamente, inspirada na literatura de cordel, nos romances cavaleirescos ibéricos e nas tradições orais do sertão. Nesse livro, como em uma tapeçaria medieval ricamente bordada, desfilam personagens históricos e fictícios, profecias e sátiras, elementos autobiográficos e mitologias regionais, tudo articulado por uma linguagem que oscila entre o coloquial vibrante e o barroco solene.
A essa obra-prima seguiram-se História d'O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão (1976) e, postumamente, em 2017, A Ilumiara – Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores, considerada por ele próprio "o livro da sua vida" e organizada por sua família a partir de manuscritos trabalhados ao longo de trinta anos. Paralelamente à criação literária, Suassuna idealizou, em outubro de 1970, o Movimento Armorial, projeto cultural de envergadura épica que visava criar uma arte erudita brasileira a partir das raízes populares do Nordeste, orientando para esse fim todas as formas de expressão artística: música, dança, literatura, artes plásticas, teatro, cinema e arquitetura. Lançado no Recife com o concerto "Três Séculos de Música Nordestina – do Barroco ao Armorial", o movimento representou não apenas uma proposta estética, mas uma verdadeira cruzada cultural, na qual Suassuna, como um cavaleiro medieval das letras, convocou artistas, intelectuais e o povo a reafirmarem a dignidade e a originalidade da cultura nordestina frente às imposições homogeneizadoras da modernidade globalizada.
Além de sua atividade criadora, Ariano Suassuna dedicou-se intensamente à vida pública e ao magistério. Exerceu cargos de secretário de Educação e Cultura do Recife (1975–1978), secretário de Cultura de Pernambuco (1994–1998) e secretário especial de Cultura de Pernambuco (2007–2010), sempre pautado por uma visão socialista e de esquerda, que o levou a filiar-se ao Partido Socialista Brasileiro em 1990 e a assumir, em 2011, sua presidência de honra. Como professor da Universidade Federal de Pernambuco, entre 1956 e 1989, formou gerações de estudantes, transmitindo-lhes não apenas conhecimentos teóricos, mas uma paixão pela cultura brasileira e um compromisso ético com a transformação social.
Sua atuação foi reconhecida por inúmeras honrarias: membro fundador do Conselho Federal de Cultura (1967), acadêmico das Academias Pernambucana, Paraibana e Brasileira de Letras, doutor honoris causa por diversas universidades, agraciado com a Ordem do Mérito Cultural e indicado, em 2012, como representante do Brasil na disputa pelo Prêmio Nobel de Literatura. Suas obras, traduzidas para inglês, francês, espanhol, alemão, holandês, italiano e polonês, tornaram-se objeto de estudos acadêmicos em instituições brasileiras e estrangeiras, atestando sua projeção internacional.
Em 23 de julho de 2014, aos 87 anos, Ariano Suassuna partiu deste mundo, vítima de parada cardíaca, no Recife, deixando um legado que transcende a literatura: uma visão de Brasil que valoriza a diversidade cultural, a justiça social e a beleza intrínseca das tradições populares. Como um trovador dos tempos modernos, ele cantou, em prosa e verso, a epopeia do sertão, transformando a memória em profecia e a dor em esperança. E assim, enquanto houver quem leia suas páginas, quem encene seus autos, quem cante suas músicas, Ariano Suassuna permanecerá vivo, como um farol a iluminar, nas trevas do esquecimento, o caminho de uma cultura que, feita de resistência e sonho, teima em não se calar.
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POR JANAÍNA COIMBRA, colunista convidada

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